sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Apontamento


A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.

Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.

Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.

Não se zanguem com ela.
São tolerantes com ela.
O que era eu um vaso vazio?

Olham os cacos absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si mesmos, não conscientes deles.
Olham e sorriem.
Sorriem tolerantes à criada involuntária.

Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
Um caco.
E os deuses olham-o especialmente, pois não sabem por que ficou ali.
(Autor: Fernando Pessoa)

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Além do desejo e do medo...


“….a primeira função da arte é exatamente aquela que já identifiquei como a primeira função da mitologia: transportar a mente em experiência para além dos guardiães – desejo e medo – do portal paradisíaco, levando-a à árvore interior da vida iluminada. Nas palavras do poeta Blake, em The Marriage of Heaven and Hell, “Se as portas da percepção fossem limpas, tudo apareceria ao homem tal como é, infinito”. Mas a limpeza das portas, o afastamento dos guardiães, esses querubins com espadas flamejantes, é o primeiro efeito da arte, enquanto o segundo, simultaneamente, é o arrebatamento produzido pela identificação de “mil leões dourados” em um único fio de cabelo.” (Joseph Campbell)

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Essencial


"Além da nobre arte de conseguir fazer as coisas, existe a nobre arte de deixar as coisas por fazer. A sabedoria da vida consiste na eliminação do que não é essencial" (Lin Yutang)

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Sucesso...


"..A sociedade estabeleceu, com todo o esmero, um certo padrão, pelo qual mede o vosso sucesso ou o vosso insucesso. Mas, se amais uma coisa e a fazeis com todo o vosso ser, então já não vos importa o êxito nem o fracasso. Nenhum homem inteligente se importa com isso. Mas, infelizmente, são raros os homens inteligentes, e ninguém vos aponta essas coisas. Tudo o que importa ao homem inteligente é perceber os fatos e compreender o problema - e isso não significa pensar em termos de êxito ou de fracasso. Só quando não amamos o que fazemos, pensamos nesses termos."(autor: Krishnamurti)

Eros e Psique


Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.
Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.
A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.
Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.
Mas cada um cumpre o Destino
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.
E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,
E, inda tonto do que houvera
,À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.
(Fernando Pessoa)

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Chauí

“A liberdade é a capacidade de darmos um sentido novo ao que parecia fatalidade, transformando a situação de fato numa realidade nova, criada por nossa ação. Essa força transformadora, que torna real o que era somente possível e que se achava apenas latente como possibilidade, é o que faz surgir uma obra de arte, uma obra de pensamento, uma ação heróica...”(autora: Marilena Chauí)

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Eu queria trazer-te uns versos muito lindos

Eu queria trazer-te uns versos muito lindos
colhidos no mais íntimo de mim...
Suas palavras
seriam as mais simples do mundo,
porém não sei que luz as iluminaria
que terias de fechar teus olhos para as ouvir...
Sim! Uma luz que viria de dentro delas,
como essa que acende inesperadas cores
nas lanternas chinesas de papel!
Trago-te palavras, apenas... e que estão escritas
do lado de fora do papel... Não sei, eu nunca soube o que dizer-te
e este poema vai morrendo, ardente e puro, ao vento
da Poesia...
como
uma pobre lanterna que incendiou!
(Mário Quintana)

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

The Road Not Taken


Two roads diverged in a yellow wood,
And sorry I could not travel both
And be one traveler, long I stood
And looked down one as far as I could
To where it bent in the undergrowth.

Then took the other, as just as fair,
And having perhaps the better claim,
Because it was grassy and wanted wear;
Though as for that the passing there
Had worn them really about the same.

And both that morning equally lay
In leaves no step had trodden black.
Oh, I kept the first for another day!
Yet knowing how way leads on to way,
I doubted if I should ever come back.

I shall be telling this with a sigh
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I--
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.
(Author: Robert Frost -1915)

Auto-Retrato Falado


Venho de um Cuiabá de garimpos e de ruelas entortadas.
Meu pai teve uma venda no Beco da Marinha, onde nasci.
Me criei no Pantanal de Corumbá entre bichos do chão,
aves, pessoas humildes, árvores e rios.
Aprecio viver em lugares decadentes por gosto de estar
entre pedras e lagartos.
Já publiquei 10 livros de poesia: ao publicá-los me sinto
meio desonrado e fujo para o Pantanal onde sou
abençoado a garças.
Me procurei a vida inteira e não me achei — pelo que
fui salvo.
Não estou na sarjeta porque herdei uma fazenda de gado.
Os bois me recriam.
Agora eu sou tão ocaso!
Estou na categoria de sofrer do moral porque só faço
coisas inúteis.
No meu morrer tem uma dor de árvore.
Autor: Manoel de Barros

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

"Demônio é a palavra que usamos para designar os deuses de outras pessoas"(Joseph Campbell)


Que obstrução existe em sua vida, e como você a transforma em radiância? Qual o maior obstáculo em minha vida? Na Ìndia, os demônios são, na verdade, obstrução à expansão da consciência. Um demônio ou diabo é um poder que existe em seu interior e que ainda não recebeu expressão plena, como um deus não identificado ou reprimido. Quem não consegue compreender um deus, vê nele um demônio.

Tudo que as pessoas estão tentando fazer é expandir a consciência, para que o conhecimento e o amor situem-se em horizontes cada vez mais amplos. É isso que acontece quando a kundalini sobe: mais e mais de seu corpo irradiam luz e consciência."(Joseph Campbell - Reflexões sobre a Arte de Viver - pag. 159)

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

A Falência do Prazer e do Amor

Beber a vida num trago, e nesse trago
Todas as sensações que a vida dá
Em todas as suas formas [...]
.....................................................................

Dantes eu queria
Embeber-me nas árvores, nas flores,
Sonhar nas rochas, mares, solidões.
Hoje não, fujo dessa idéia louca:
Tudo o que me aproxima do mistério
Confrange-me de horror.
Quero hoje apenas Sensações, muitas, muitas sensações,
De tudo, de todos neste mundo — humanas,
Não outras de delírios panteístas
Mas sim perpétuos choques de prazer
Mudando sempre,
Guardando forte a personalidade
Para sintetizá-las num sentir.
Quero Afogar em bulício, em luz, em vozes,
— Tumultuárias [cousas] usuais —
o sentimento da desolação
Que me enche e me avassala.
Folgaria
De encher num dia, [...] num trago,
A medida dos vícios, inda mesmo
Que fosse condenado eternamente —
Loucura! — ao tal inferno,
A um inferno real. (Fernando Pessoa)

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Ser sensível


A sensibilidade nos traz nuances fantásticas de apreciação da vida, das artes, das pessoas e, principalmente, da natureza. Por outro lado nos faz desenvolver, com o tempo, uma grande rede de “capilares sensíveis” que nos faz perceber e reagir a poucos e mínimos estímulos. Guardamos sensações eternamente, quando o certo seria deixarmos passar e simplesmente esquecê-las. Helena Erthal

A liberdade de criação e o domínio técnico


"Eu costumava dizer aos meus alunos que a disciplina não é necessariamente uma prisão. Ao contrário, ela libera. Você precisa conhecer para ser livre. Quem não conhece, acerta por acaso. Para ser livre, o conhecimento é fundamental. Para se ter a liberdade de criação, é necessário o domínio técnico, que está apoiado, evidentemente, numa disciplina que vai orientar a conquista dos meios."(Renina Katz - Doutora em Artes Plásticas /professora da USP em entrevista com Radha Abramo - Dezembro 2003)

quinta-feira, 9 de outubro de 2008


"Assim, pelo olhos o amor atinge o coração:

Pois os olhos são as vigias do coração,

E os olhos partem para identificar

Aquilo que agradaria ao coração possuir.

E quando se põem de pleno acordo

E firmes, todos os três, em uma decisão,

Nesse momento, nasce o amor perfeito

Daquilo que os olhos tornaram grato ao coração.

Não pode o amor nascer ou ter princípio d'outro modo

Que por este nascimento e início movido pela inclinação

Pela graça e pelo comando

Destes três, e de seu prazer,

Nasce o amor, que com justa esperança

Sai a reconfortar seus amigos

Pois, como todo verdadeiro amante

Sabe, o amor é a perfeita bondade,

Que nasce - não da dúvida - do coração e dos olhos.

Os olhos fazem-no desabrocar, o coração o amadurece:

Amor, fruto de sua vera semente."(autor: Guiraut de Borneilh)

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Medo, força ...liberdade


"O medo de seu poder é que o mantém no sistema inferior" (Joseph Campbell - Reflexões sobre a Arte de Viver pag. 213)
A incapacidade de fazer ou realizar algo muitas vezes já nasce no meio familiar, onde a criança convive com pessoas frustadas, tolhidas, sem coragem de buscar suas realizações.
Isso é muito sério, dificilmente a escola dará conta de modificar certas idéias sedimentadas de forma tão concreta como o exemplo familiar. De repente se encontra a salvação numa amizade, ou namoro que faça com que essa pessoa venha a conhecer seu poder na liberdade, na ousadia, na transgressão. Você conhece o seu poder?

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Uma canção para os homens....

Guerreiro Menino (um Homem Também Chora)

Compositor: Gonzaguinha

Um homem também chora
Menina morena
Também deseja colo
Palavras amenas
Precisa de carinho
Precisa de ternura
Precisa de um abraço
Da própria candura
Guerreiros são pessoas
São fortes, são frágeis
Guerreiros são meninos
No fundo do peito
Precisam de um descanso
Precisam de um remanso
Precisam de um sonho
Que os tornem perfeitos
É triste ver este homem
Guerreiro menino
Com a barra de seu tempo
Por sobre seus ombros
Eu vejo que ele berra
Eu vejo que ele sangra
A dor que traz no peito
Pois ama e ama
Um homem se humilha
Se castram seu sonho
Seu sonho é sua vida
E a vida é trabalho
E sem o seu trabalho
Um homem não tem honra
E sem a sua honra
Se morre, se mata
Não dá pra ser feliz
Não dá pra ser feliz

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Last Words - Lin Yutang


“Existe uma lei sobre o ritmo natural que governa nosso corpo desde a infância, passando pela juventude e a velhice, declinando até a morte. Existe uma beleza em envelhecer graciosamente. Uma de minhas citações de mais sucesso foi a que fiz em “Canção de Outono”.

Chega um momento em nossas vidas, como pessoas e como indivíduos, que ficamos plenos pelo espírito do início do outono, cujo verde é misturado ao dourado, a tristeza com a alegria e a esperança com as recordações. Chega um momento em nossas vidas quando a inocência do espírito da primavera é uma recordação e a exuberância do verão uma canção cuja ressonância se mantém suave no ar. Quando visualizamos nossa vida com desprendimento, o problema não é mais como crescer mas como viver verdadeiramente, não é mais como se empenhar e trabalhar mas como gozar os preciosos momentos que temos, não mais como desprender nossa energia mas como conservá-la em preparação para o inverno que se aproxima. A noção de ter chegado a algum lugar, de ter se estabelecido e ter descoberto o que nós queremos. O entendimento de ter conquistado algo, ainda que pouco precioso, comparável com a exuberância do passado mas ainda algo, como uma floresta outonal, em suas pequenas glórias de verão, retendo parte delas e assim perpetuando-as.” (Last Words – autor: Lin Yutang - tradução livre)


terça-feira, 26 de agosto de 2008

Abismo


"Um pequeno conselho dado a um jovem nativo americano na época de sua iniciação:
- Quando estiver seguindo o caminho da vida, você verá um grande abismo.

Pule.

Ele não é tão grande quanto você pensa."

("Reflexões sobre a Arte de Viver - Joseph Campbell pag. 300)
"Um pequeno conselho dado a um jovem nativo americano na época de sua iniciação:

- Quando estiver seguindo o caminho da vida, você verá um grande abismo.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

O Tempo....

"Amigos não consultem os relógios quando um dia me for de vossas vidas... Porque o tempo é uma invenção da morte: não o conhece a vida - a verdadeira - em que basta um momento de poesia para nos dar a eternidade inteira"(Mário Quintana)

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Parque Polino - Calábria - Itália


O Mundo que a mídia faz girar…

Creio que a manipulação do comportamento humano nunca foi tão articulado como nos tempos atuais. Em nome de uma felicidade geralmente “vendida” pelos canais comunicativos, voluntariamente as pessoas se dispõem a seguir as tendências comportamentais e de consumo que essa mídia oferece. Verifica-se um alinhamento de formato e conteúdo em jornais, revistas e na televisão trazendo em uníssono quais informações e como as mesmas devem se apresentar ao público.

As informações a que me refiro não são somente as notícias de telejornais, jornais e revistas de cunho político/econômico mas as informações de todos os setores: medicina, psicologia, estética etc. O desenvolvimento de uma crítica ao que se recebe no dia-a-dia deve fazer parte da educação familiar. O difícil em nossa sociedade é que vimos poucas pessoas que conseguem tratar essa avalanche visual e sonora com critério. É tão patente para certos países que já existem escolas na Europa que ensinam a crítica da informação em uma disciplina distinta.

Devemos trabalhar no sentido de minimizarmos os efeitos desse bombardeio, que muitas vezes só podemos combater, restringindo o tempo e o tipo de programa. Outra ferramenta ótima é a internet, nela pode-se procurar a mídia não comercial para ter uma outra versão talvez da mesma notícia para então chegarmos a nossa própria conclusão sobre certos assuntos. Ler somente não é adquirir conhecimento, o conhecimento se faz com o raciocínio sobre o que se lê.

Liberdade




“A liberdade é a capacidade de darmos um sentido novo ao que parecia fatalidade, transformando a situação de fato numa realidade nova, criada por nossa ação. Essa força transformadora, que torna real o que era somente possível e que se achava apenas latente como possibilidade, é o que faz surgir uma obra de arte, uma obra de pensamento, uma ação heróica...”(Marilena Chauí)



Procuro resposta a uma ansiedade que se instaurou em minha alma. Momento de reflexão e de angústia sem certeza de chegar a alguma luz. Luz de liberdade, de esclarecimento de verdades elementares as quais poucos conseguem permitir a consciência alcançar. Quero lançar-me, transgredir...como??!!

Toda liberdade e desprendimento buscados se esvão na estrutura de vida e responsabilidades optadas há algum tempo... são grilhões sim, mas como negar que também são felicidades gostosas, sentir o conforto, muitas vezes também o amor e o carinho advindos dessas opções. Talvez sejam somente as dualidades da vida...ou essa seria uma resposta “conveniente” às convenções?!? É o que a Marilena Chauí quer dizer com “..ao que parecia fatalidade...”, ou seja , introspecta-se um fatalismo de que não se pode fazer diferente ou viver de outra forma.

Busca-se uma complexidade na vida que não é adequada, muito menos proveitosa para quem busca a liberdade. Felicidade é mais atitude do que momento. Saúde é condição e resultado de como se vive. Amor é indefinível e incondicional. Melhor simplificar nossa vida, saber o que se quer, dar importância a direção que se segue, fazendo, ao mesmo tempo, a manutenção das relações de afeto.

Pensa-se em “aproveitar a vida”, mas às vezes deturpa-se o que poderia ser mais fantástico dentro dessa perspectiva. Muitas vezes é simplesmente fazer o que se pensa ser impossível...criar caminhos novos... Tudo é possível basta pensar se o preço à pagar é compensatório em comparação ao resultado.